sábado, 9 de fevereiro de 2019

Revista Época tenta voltar ao jornalismo, mas não é mais possível


Com a boa reportagem da semana passada sobre o sequestro da menina indígena pela ministra Damares Alves, uma cobertura firme sobre os escândalos da família Bolsonaro, ironias bem colocadas sobre a facção mais insana do ministério e alguns colunistas afiados como Conrado Hübner Mendes, a revista Época desponta, surpreendentemente, como um farol de jornalismo de verdade em meios às trevas às quais há muito tempo nos acostumamos.

Mas é necessário ter claro quais são seus limites. Apesar de seu autodiscurso, o jornalismo fala de uma posição social particular, tão situada como qualquer outra. Época apresenta denúncias que são importantes, mas, em outras temáticas, reforça os limites da "controvérsia legítima", como dizia Daniel Hallin, extirpando do debate posições consideradas inadequadas. E com tanto mais autoridade quanto mais parece independente.

A edição que chegou às bancas ontem traz um debate sobre as medidas regressivas de segurança pública do juiz Sérgio Moro. A coluna de Mendes, que faz uma crítica sintética e devastadora do pacote, merece chamada de capa. Um belo contraste com - por exemplo - a GloboNews, do mesmo grupo, onde inocentes mervais e pobres camarottis insistem que o pacote é brilhante e aplaudidíssimo por todos os especialistas.

Muito bom. Mas a primeira reportagem da edição, sobre a nova condenação de Lula, endossa sem ressalvas a acusação. Os muitos problemas e mesmo erros grosseiros da sentença da substituta de Sérgio Moro não são sequer citados. No décimo e último parágrafo aparece a informação de que a defesa vai recorrer e que julga que Lula é vítima de perseguição política. Sem que seja apresentado nenhum dos argumentos que a sustentam, a afirmação parece mero mimimi.

Apontar a perseguição judicial contra Lula, com tudo o que ela traz junto (o caráter golpista do impeachment de Dilma Rousseff, o aparelhamento do poder judiciário, a legitimidade insuficiente da eleição de 2018), não é aceitável. Época pode ser crítica, às vezes de forma contundente, a muitos aspectos da nova ordem que tomou conta do Brasil. Mas a nova ordem, em si mesma, não deve ser contestada.

Em seguida vem a reportagem de capa, sobre a reforma da previdência. Na capa, o bom título "Aposentada ficava a sua avó" sugeriria uma abordagem mais crítica, mas não é nada disso. São seis páginas de endosso ao enquadramento dominante - a questão deve ser analisada pelo ângulo contábil, não dos direitos; o quadro geral da destinação do orçamento público e da generosidade do Estado brasileiro com o capital não tem nada a ver com a discussão e não deve ser evocado; o déficit é uma realidade incontestável e incontrolável; a previdência atual é uma bomba-relógio; o trabalhador brasileiro se aposenta cedo demais; os funcionários públicos são privilegiados; a grande questão é incluir os militares para que a reforma seja justa. Todos os especialistas ouvidos na reportagem concordam com este veredito, o que deve ser um sinal poderoso de que ele corresponde à "verdade dos fatos". Para não dizer que o enquadramento oposto está 100% ausente, ele aparece, mas na voz de um cidadão comum, já de partida desqualificado por sua condição de "aposentado privilegiado".

A matéria seguinte trata dos problemas da inspiração de Paulo Guedes, o sistema chileno de capitalização da Previdência. Parece, portanto, que há espaço para discutir qual o modelo de financiamento. Mas o enquadramento geral, não. O déficit é uma realidade, causada pelo excesso de direitos, portanto é fundamental reduzi-los - e pronto. Esse ponto de partida é sagrado.

É importante denunciar o antijornalismo, o alinhamento vergonhoso com o governo Bolsonaro e suas mentiras, a desonestidade a toda prova de muito da imprensa brasileira. Mas isso não significa ignorar que o jornalismo empresarial mantém seus vieses mesmo quando é jornalismo. A campanha hipócrita da Folha de S. Paulo diz que ela própria, Folha, é a encarnação da democracia. Mas a democracia precisa de muito mais do que isso. Precisa de fontes de informação plurais disputando a produção da agenda pública e seus enquadramentos. Enquanto, em questões tão centrais quanto o golpe de 2016 ou a reforma da Previdência, as vozes dissonantes forem sistematicamente alijadas do debate, com a colaboração ativa de um sistema de mídia homogêneo, não tem denúncia contra Damares que o redima.

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