sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pobre Rio

Moisés Mendes

O Rio deveria ser para sempre a cidade mais bela e alegre do Brasil, porque o Rio era o que toda cidade gostaria de ter sido. Era.

O Rio se transformou no centro irradiador de desgraças políticas e de tantas outras desgraças, em todas as áreas.

O Rio tem um prefeito que vê o diabo se movimentando entre o povo que o elegeu, porque o prefeito odeia Carnaval.

O Rio elegeu um prefeito fundamentalista que abomina as liberdades e a alegria da cidade. E agora elegeu um governador também fundamentalista que estimula a polícia a matar quem se mexer e estiver sob suspeita.

E os que estão sempre sob suspeita são os jovens pobres e negros, que são mortos mesmo quando não se mexem. Os pobres elegeram esse governador.

O Rio inventou as milícias. E as milícias chegam agora ao poder como amigas dos Bolsonaros, porque o Rio também nos deu os Bolsonaros. Os Bolsonaros são uma genuína invenção carioca.

Esse Rio tão lindo propaga desgraças políticas e convive com todo tipo de tragédia, das ditas ‘naturais’, que também pune os pobres, às tragédias anunciadas, como essa do incêndio no Flamengo, num lugar que deveria estar interditado.

O clube mais popular do Brasil faz o Brasil chorar com a morte de adolescentes vindos de toda parte do país para levar adiante o maior de todos os sonhos de um menino brasileiro. Eles queriam ser craques. O Rio mata Marielles e mata craques.

Mario Quintana disse do Rio que seus túneis tinham a função de fazer seus olhos descansarem de tanta beleza.

Nelson Rodrigues escreveu assim sobre o Rio: “Em São Paulo, de vez em quando eu tenho vontade de sentar no meio fio, na Avenida São João, e chorar de saudade, de nostalgia profunda”.

Nelson falou dessa saudade do Rio em 1967. Que falta sentimos desse Rio literário do tempo de Nelson Rodrigues, quando ainda era possível romantizar toda forma de miséria humana.

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