sábado, 9 de fevereiro de 2019

Otimismo infundado de brasileiros é causa de tragédias sem fim


Os dois horrores do mês dizem muito sobre o que precisa mudar em nossa cultura: este excesso de confiança de que as coisas darão certo. A capacidade de aceitar o que na Bahia a gente chama de “armengues”: coisas mal feitas, feitas nas coxas, sem zelo.

Barreira inadequada. Alojamento onde não deveria existir um. Condicionadores de ar mal instalados, com risco de incêndio.

Os estoicos praticavam a antecipação do mal sem o menor pudor. Gostavam de pensar no que pode dar errado. Meditavam sobre desgraças possíveis. Não era masoquismo. Pensar no que de ruim pode ocorrer e’ uma forma de se antecipar e até de impedir.

Já notaram como nossa cultura é o avesso disso?

“Não pense no que pode dar errado, pois atrai”

“Pense positivo, vai dar tudo certo, não fique falando do que pode dar errado”

Pois é.

É por isso que barreiras péssimas cedem, é por isso que condicionadores de ar pegam fogo em alojamentos inadequados.
Por trás de cada um desses desmazelos, há excesso de confiança e recusa em pensar no pior cenário.

“Deus proverá”.

Olha, SE Deus existe, ele nos deu a vida.
O resto é por nossa conta.

Hannah Arendt está certa: em Auschwitz, muitos se perguntaram “onde estava Deus que permitiu isso?”, mas a pergunta está errada.

A pergunta certa é “onde estavam os homens?”

Ou olhando pro lado,
ou pensando em coisas positivas.

Pensar positivo não impede barreiras de cederem, nem crianças de morrerem assadas.

A gente precisa crescer.
A gente precisa pensar na merda que vai dar, sem o menor pudor.
A gente precisa falar sobre o que pode dar errado.

Caso contrário, janeiro vai ser fevereiro, vai ser março e até dezembro. E eu não aguento mais.

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