segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Não adianta se declarar progressista e fazer show para a Vale


Clara Drummond

Anos atrás, viralizou na internet a reportagem sobre o ‘rei do camarote’, um sujeito do interior, revendedor de carros, que gastava milhares de reais numa noite.

Esse tipo de reportagem sempre me incomodou. Primeiro, porque é uma pauta preguiçosa, como todo jornalista sabe. Não é preciso muito esforço para pinçar dezenas de aspas absurdas que irão repercutir. Segundo, porque proporciona uma catarse fácil, já que permite à pessoa mais mesquinha do mundo a se sentir superior à futilidade descrita naquelas páginas. Terceiro, porque essa ode à ostentação que identificamos como a epítome do mau gosto é comumente associado aos ‘novos ricos’, mas é regra no Country Club. O ‘berço’ nunca impediu ninguém de se comportar dessa forma. O rei do camarote faz com que o quatrocentão se sinta um modelo de refinamento enquanto ele próprio é o rei do camarote de Saint Tropez. A exposição do consumismo vulgar a fim de ridicularizá-lo é irrelevante porque não mexe com os verdadeiros donos do poder, e sim os conforta.

Na mesma época, Nizan Guanaes escreveu um artigo chamado ‘Por uma nova classe alta'. O publicitário cita o ‘rei do camarote’ como exemplo da “classe alta inculta que beira as raias do constrangimento num país cheio de desigualdades”. Nizan Guanaes se coloca como contraexemplo dessa gente que tem “dinheiro sem livros” – afinal, em vez de dar ao filho uma Ferrari, ele preferiu leva-lo para jantar num restaurante com três estrelas no Michelin, em Osaka. Acho esse artigo fascinante por causa da cegueira egóica que transparece em cada linha. Eu pensava: alguém avisa a esse cara que ele e sua família tem o exato mesmo comportamento do ‘rei do camarote’, que ele acha tão desprezível.

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Parênteses: veio de um lugar estritamente pessoal parte do meu incômodo com a gentrificação da Festa de Iemanjá, em Salvador. Eu não tenho nenhuma ligação com o candomblé, mas conheço muitas das pessoas que estavam presentes, e que são literalmente racistas. Não estamos falando aqui de racismo velado ou estrutural. É racismo explícito mesmo, dito em voz alta, na frente de quem for, impunemente. E estavam lá, possivelmente querendo descolar um convite para uma festa na casa da Regina Casé ou Paula Lavigne. Eu fico muito impressionada ao ver amigos queridos que são de esquerda relevando esse tipo de comportamento. Alou, amigos: não vale falar mal do racismo/classismo alheio por trás enquanto ouve esses absurdos cheios de diplomacia. No fascismo, o mínimo que se espera da conduta íntima de cada um é o rigor ético radical, que inclui se posicionar.

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Não sei o quanto o julgamento moral incomoda a elite brasileira. Algumas vezes, já interrompi uma discussão política para apontar algo como: “O PT é corrupto mas seu pai também é!”, mas sinceramente acho que esse tipo de coisa passa batido. A constituição psíquica das pessoas ricas tem uma espécie de anticorpos para essas situações. A sociedade condena mais facilmente a falta de modos que é constranger alguém dessa forma que o sujeito que ganhou dinheiro às custas do sofrimento alheio. Talvez seja mais eficaz outro tipo de julgamento: cafona, vulgar, ignorante, grosseira, mal-educada. Seu sobrenome grifado não te exime de ser igualzinho ao ‘rei do camarote’, aceita.

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Acho também que é hora para a minha amada bolha desmistificar determinadas figuras de esquerda que compactuam com o que existe de mais nocivo do nosso sistema de classes. Não dá para ser ícone de esquerda e ter empregada dormindo no emprego disponível 24h, como se fosse hotel. Não adianta abrir a casa para líder dos sem teto num dia e no outro cantar para publicitário da Vale S/A, com os mortos ainda nos escombros.

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No caso de Gil e Caetano, eu me pergunto: quanto devem ter pago para que esses shows fossem feitos? Será mesmo uma oferta tão irrecusável a ponto de arriscarem sua integridade? Os dois são velhos, já são muito ricos, precisa de mais dinheiro? Eles vão fazer o que com um cachê tão alto, servir mais arroz de pato para atriz global cafona, que nem fazem toda semana? Ou vão colocar a culpa no ‘bad cop’ que são as esposas ambiciosas enquanto eles mantêm a pureza artística intacta?

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Enfim, sei lá, mil coisas

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