quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Jornalismo ignora a vida real



Ontem caiu o mundo à noite no Rio de Janeiro. E não foi a primeira vez que ocorreu o seguinte: enquanto o toró remexia a cidade inteira, a TV falava pouco, ou quase nada. Você ligava a TV e não havia senso de urgência, nem indicação de proporção do que estava acontecendo.

Em um dos canais, sediado no Rio de Janeiro, corria uma longa entrevista ao vivo com um deputado federal do Rio de Janeiro, enquanto a cidade se remexia em vento e tempestade. O sujeito é do Rio de Janeiro. Poderia ser o Papa, tinha razão para interromper.

Este é um calcanhar de Aquiles do jornalismo televisivo em tempo real: se uma emergência de grande alcance estoura depois de 20h, 21h, a cobertura tropeça, demora a pegar.

Dois fatores (metade da minha carreira foi nisso):

- Nesta altura do dia, grande parte das equipes já foram embora.
- Quem fica, a esta altura, está mais focado no Titanic que vai navegar no prime time.

Daí você junta o fato de que, quando você fica muito enfurnado em redação ou switcher, você tende a perder senso de proporção. Gira a roda, e a entrevista "exclusiva" com um deputado federal fica parecendo mais importante do que o inundar da segunda maior cidade do país.

Falo do Rio de Janeiro, mas poderia estar falando de Brasília, BH ou Fortaleza, tanto faz. São Paulo fica um pouco melhor atendida neste horário, mas, mesmo assim, tropeça, demora a pegar.

Vou colocar em termos que jornalista (eu, inclusive) entende: se um evento de grande escala numa grande cidade faz centenas de milhares de pessoas pensarem "Será que a minha mãe está bem?", você para tudo. Tira o microfone da boca do Frank Sinatra renascido, não importa.

"Ah, mas não tem equipe na rua": Meu irmão, enquanto a equipe não passa da esquina, você bota a câmera pela janela e chama um cabra para ficar lendo a lista de regiões afetadas. O uso desse tipo informação é imediato, influencia diretamente a vida das pessoas.

"Ah, mas é muito local": Porra, até míssil intercontinental mata localmente, ô Sherlock. Metrópole, capital, imagina o contingente de gente parada em bar, presa no trabalho, sem condição de saber da família inteira. Esta é a vida. Não os "bastidores do poder".

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