sábado, 9 de fevereiro de 2019

A primeira penca de cadáveres de Sérgio Moro


O pacote de Sérgio Moro ainda nem foi aprovado, mas já produz seus primeiros cadáveres. Sim, é verdade! O presidente Jair Bolsonaro prometeu “direitos humanos para humanos direitos”. Wilson Witzel, o governador do Rio, anunciou o tiro “na cabecinha”. Estupidez e retórica brutalista. Mas quem deu verniz à barbárie foi mesmo o novo ministro da Justiça, com seu particularíssimo entendimento do que venha a ser legitima defesa, excesso e ação preventiva. Durante mais de quatro anos — desde o início da Lava Jato —, chamei a atenção dos meus colegas de imprensa para a retórica ambígua de Moro em matéria de cumprimento de lei e para o viés autoritário do seu modo de fazer justiça. Alertei que havia ali algo vizinho, senão ele mesmo, de um projeto político. Arquei com as consequências da crítica — mormente porque todos sabem que não pertenço à igreja petista nem sou da esquerda. Faziam, então, uma pergunta surda: “Se esse cara escreveu e escreve o que se sabe sobre o PT, por que a crítica a Moro e à Lava Jato? Eles têm um lado bom: combatem a corrupção”. A minha resposta era e é óbvia: o ex-juiz, agora ministro, não está nem aí para a lei. Quando à questão política, bem… Acho que posso dispensar-me de explicitar o óbvio. O governo Witzel já entregou a sua primeira penca de carne preta, a mais barata do mercado. Vem muito mais por aí. Todos trazem a marca simbólica da “Lei Moro”, mesmo sem a aprovação do Congresso, que se pode dar como certa.

Segundo o relato, quando seu filho virou-se de costas para negociar a rendição com o grupo, agentes atiraram contra ele. “Deram um tiro nas costas. Furaram meu filho todo. Não me respeitaram em momento nenhum, nem meu filho de oito anos. Falou na cara do meu filho: ‘bem feito’.
 “Ah, mas será que não aconteceu mesmo como diz a Polícia, não como afirmam os familiares?” Será impossível saber. A cena do crime foi mexida. Os policiais não esperaram o concurso da polícia científica. Tiraram os mortos e levaram para hospitais. E ponto. Eram bandidos. Acabou. E vou me dispensar de recorrer às redes sociais para contatar os idiotas, os sociopatas e os psicopatas a aplaudir a ação, como se fosse haver mais segurança no Rio com os cadáveres se amontoando. Assim a cidade se tornou o que é. Assim se alimentam os partidos do crime. Assim se gera o ciclo interminável da violência. “Ah, então não pode combater os bandidos? Duas facções trocavam tiros havia três dias…” Lamento! Os indícios de que houve uma execução coletiva no Rio são muito fortes. De todo modo, ninguém saberá porque a investigação se tornou quase impossível. A tal “excludente de ilicitude” ainda não vale no país. Valerá daqui a pouco. Sérgio Moro já se encarregou. E, por óbvio, a Polícia tem de combater bandidos.
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Pois é… Poderá pensar o leitor: “Parentes de presos e mortos pela polícia sempre mentem. É sempre assim”.  Não fosse a verdade dos familiares de Leonardo Nascimento, ele estaria preso, acusado do assassinato de Matheus Lessa. A polícia trancafiou o rapaz com uma rapidez que certamente deixou o governador Wilson Witzel orgulhoso. Ocorre que era inocente. Seu pais e amigos tiveram de buscar as provas, vejam vocês!, de que ele não era o assassino. Afinal, havia o “reconhecimento”. E ainda tive de ouvir: “Ah, mas ele era muito parecido com o verdadeiro criminoso”. É verdade! Ambos eram negros. Muito parecidos! Coloque uma pele branca nos dois, e as diferenças, todos poderemos perceber, estão na cara. Não estivessem também no porte físico. Mas, sabem como é, na nova metafísica, não considerar um preto suspeito, de saída, é coisa de politicamente corretos, de esquerdistas e de gente contaminada pelo “marxismo cultural”. Leonardo não era o assassino. Leonardo não é bandido. “Ah, mas aqueles que foram mortos eram; logo, seus familiares…” Bem, convém não concluir a frase, não é? Retomou-se o padrão que fez o Rio ser o que é. Ah, sim: com o pacote de Moro inteiramente aprovado e sem uma família que fez o trabalho da Polícia, Leonardo, o inocente, poderia ter a chance da barganha. Diante de um promotor engravatado, ouviria a oferta: 20 anos de cana ou admitir a culpa em troca de 10? 
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