sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Em cartaz na Bozolândia...


Não basta ser ridículo


Thomas de Toledo

Que cena patética, essa foto do Bolsonaro acompanhado de seus gangsters. Mostra exatamente o que ele é: aparentemente um presidente (paletó por cima), na prática um charlatão (camiseta falsificada do Palmeiras), que não passa de um pé de chinelo (sem comentários!), rodeado de corruptos que não sabem nem o que é a obra de arte ao fundo. Não basta ser ridículo. Tem que se vestir de ridículo.

Jovem morto no Extra não tentou pegar a arma do segurança bolsonarista

Diário do laranjal

Diário do Bolso

Diário, que dia feliz!

Eu estava na dúvida sobre o que fazer com o Bebbiano. Demito ou não demito? Se eu não demito, deixo de ser mito? Ou eu minto e digo que não demito e depois demito?

Mas agora há pouco a gente se encontrou e a conversa foi assim:

- E aí, Presida! Estava elegante naquela foto, hein? Só você para combinar papete, blaiser, calça de abrigo e camisa do Palmeiras.

- Boa tarde, Gustavo.

- Gustavo? Que frescura é essa? Você só me chama de Bebbi, lembra?

- Chamava, Gustavo, chamava. Você tinha que ter se demitido. Hoje em dia você é um leproso morfético. E a coisa não pode respingar em mim.

- Suco de laranja não mancha, kkkkk!

- Não tem graça, Gustavo. Com que moral que eu vou ficar se não punir alguém?

- Mas Presida, por que eu? O Marcelo Álvaro, do Turismo, fez a mesma coisa e nada. O Bivar contratou a empresa do filho por 250 mil e nada! O Onyx só pediu desculpa e nada. O Moro recebeu o pessoal da Taurus e nada. Só eu que vou ficar de Judas?

- Alguém tem que ser o... A gente fala boi expiatório ou bode de piranha? Tanto faz. Alguém tem que pagar pra não dar a impressão de impunidade.

- Presida, não se dá um tiro na nuca do seu próprio soldado.

- Às vezes dá, para manter o respeito.

- Eu vou cair atirando.

- Se o assunto é milícia vai falar com o Flávio.

- Eu quis dizer que vou abrir o bico. Sei de tudo. Até a cor da sua cueca.

- Mas, mas... O que que eu posso fazer, Bebbi?

- Deixa o tempo passar. O pessoal esquece das coisas. Por exemplo, ninguém fala o que está acontecendo com a lama de Brumadinho. Ela ainda está avançando, mas o pessoal já esqueceu.

- Pô, eu sou homem de palavra. Já prometi sua cabeça.

- Que palavra o quê? Em 2017 você disse que se aposentar aos 65 anos era uma falta de humanidade e agora fala que está tudo bem.

- Não sei, Bebbi, não sei...

- Faz o seguinte: diz que o Moro vai investigar e que você vai esperar o resultado da investigação. É simples, Presida!

- Mas e se o Moro descobrir alguma coisa? – eu perguntei.

Ele ficou uns segundos em silêncio até entender a piada. Aí explodiu numa gargalhada e a gente se abraçou.

Como é linda a amizade, Diário!

Segurança do Extra que matou jovem é bolsonarista


Nilson Lage

O sujeito dá um golpe -- "mata-leão", uma espécie de "gravata" com sobrepeso-- e enforca, na maior covardia, um rapaz de 19 anos,em frente à mãe, que rogava, e aos circunstantes que lhe pediam que largasse a vítima..em um supermercado carioca onde o criminoso trabalha como segurança.

O crime foi gravado em vídeo.

Na delegacia, onde se livrou pagando fiança de dez mil reais, Davi Ricardo Moreira Amâncio contou uma história sem pé nem cabeça; . O ponto alto da fábula é a afirmação de que Pedro Henrique Gonzaga, enquanto estrebuchava."estava simulando". Simulou tão bem que morreu.


O espancamento brutal de um cachorro, há dias, em outro supermercado da cidade, teve enorme repercussão entre indignados defensores dos animais.

Estamos em plena temporada de caça aos pobres -- mais indefesos do que vira-latas.

O governo Bolsonaro não precisa de inimigos


O desmanche do governo
Luis Nassif

O governo Bolsonaro não precisa de inimigos. Ele e a família se bastam. Imaginava-se que o primeiro mês de governo seria das cabeçadas. Depois, haveria uma articulação inicial para começar a implementar seus diversos sacos de maldade.

O episódio Bebianno mostrou que Jair e filhos são incontroláveis.

Como se recorda, a Folha denunciou o desvio de verbas partidárias para laranjas do PSL. Imediatamente, Carlos Bolsonaro – o filho pitbull – apontou o dedo para Gustavo Bebianno, Secretário Geral da Presidência. Para se proteger, Bebianno declarou ter conversado três vezes durante o dia com o pai de Carlos. Carlos desmentiu e o pai de Carlos confirmou o desmentido.

Frágil até a medula, o pai de Carlos anunciou que esperava chegar em Brasília com Bebianno fora do governo. Sabendo no tête-à-tête o pai de Carlos é frágil, Bebianno disse que só sairia depois de conversar pessoalmente com o pai de Carlos.

O pai é emocional e politicamente dependente dos filhos. E os filhos são completos sem-noção. O governo Bolsonaro não sobrevive com os filhos no centro dos acontecimentos. E o pai não sobrevive sem eles. Como é que se resolve esse drama nelsonrodriguiano?

Texto completo AQUI

A chinelagem no poder

Jorge Furtado

O presidente da república participar de uma importante reunião ministerial, que pode definir os rumos da previdência social do país, vestindo a camiseta de um time de futebol, é um retrato da indigência moral e mental deste governo. O fato da camiseta ser falsificada, e portanto ilegal, é o detalhe tragicômico nesta chanchada canhestra que tomou conta do país, com a cumplicidade criminosa dos papagaios de aluguel da imprensa.

Horóscopo: Taurus


Polícia do Rio protege Flávio Bolsonaro e milicianos


Você é delegado, tem recursos e equipe limitados, e duas linhas de investigação sobre Marielle: Marcello Siciliano (investigado há meses e com indícios frágeis) e Flavio Bolsonaro (que empregou a mãe e a esposa de um dos homens apontados como o assassino). Quem você investiga?

Você é esse mesmo delegado e, depois de tudo o que se sabe hoje, precisa investigar possíveis mandantes da facada em Bolsonaro. Quem você investiga: o PSOL ou as milícias?

Não parece tão difícil escolher.

As ilações da família B em relação à facada + PSOL não levariam nem mesmo o mais inexperiente dos investigadores a apostar nisso. Já o possível envolvimento do PCC parece a saída perfeita. Pode ser? Pode, ora. Mas de novo: a família está mais próxima de milicianos ou do PCC?

Então de novo: estamos falando em investigações. Você é delegado. Investiga quem? Onde estão os elementos mais sólidos para uma investigação (que pode não dar em nada, claro, mas esses crimes precisam ser investigados). PSOL ou milícia? Marcello Siciliano ou Flávio Bolsonaro?

Ninguém vai mexer com isso, sei. Estou apenas apontando o caminho mais lógico de uma investigação, que sempre aposta nas melhores possibilidades já que não pode investigar tudo. Todos são inocentes até prova em contrário, mas indícios a gente não varre pra baixo do tapete. Ou sim.

Bolsonaro usa camisa falsificada do Palmeiras em reunião sobre Previdência


Com predominância da cor verde-limão, modelo é uma cópia de uma camisa utilizada pelo clube em algumas partidas na temporada de 2010


Será que a camisa falsificada foi presente de algum miliciano que tem conexão com um quadrilha de roubo de carga? É só uma hipótese.



O rapaz, que saiu do hospital há 24 horas após seções de quimioterapia, vai decidir sobre o projeto que é a maior imposição do "mercado" e interfere na vida de todo o brasileiro. Aí você olha e ele está com a camisa de treinos do Palmeiras (falsificada) e chinelos havaianas.

Respeite o Brasil, imbecil!

Quase lá

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Sai de baixo!


Se Bolsonaro não for retirado do poder, os estragos serão irreparáveis


Bolsonaro já fez o seu papel
Jair Bolsonaro realizou com impressionante sucesso a única coisa que poderia realizar no Brasil: destruiu a direita.
por Fernando Horta

A direita brasileira vinha fazendo um excelente planejamento para voltar ao poder, desde 2013. Aproveitara a anencefalia dos protestos de 2013, reduzira a taxa de aprovação de Dilma Rousseff para menos da metade do que era, e direcionaram a ira do povo contra um partido. A derrota eleitoral de 2014 deveria ter sido vista como apenas um contratempo no projeto da retomada do poder.

O plano era sangrar Dilma Rousseff por longos quatro anos. A inteligência sórdida de Cunha como chefe da Câmara travava o governo, a associação com os meios de comunicação mantinha os históricos laços de controle sobre a população firmemente assentados nas mãos dos detentores do capital, e o choque internacional da economia (com redução da demanda de todos os parceiros comerciais brasileiros) fazia com que a economia brasileira sentisse demais o baque. 

Cunha controlava as “pautas-bomba”, ampliando sorrateiramente o gasto do governo enquanto travava a aprovação de medidas que poderiam dar algum fôlego à Dilma. Era um torniquete a longo prazo difícil de se desvencilhar. O PT estava em alguma medida rachado, Lula se mantinha afastado do governo de Dilma, e as preferências políticas e técnicas da presidenta eleita não eram efetivamente um sucesso entre os militantes e correligionários.

Levy, Kátia Abreu, Traumann e vários outros nomes desgastavam Dilma e, ao mesmo tempo, davam munição de para Alckmin, Serra e até Aécio. Os anos dourados do governo Lula davam sinais de que haviam acabado e seria necessária uma dose imensa de carisma, capacidade política e criatividade para fazer a roda dos governos de esquerda girar novamente. Tudo o que Dilma demonstrava não dispor.

A linha auxiliar do judiciário seguia incólume e fazendo estragos. Moro, como juiz-justiceiro numa espinha dorsal composta ainda por seu amigo Gebran e Thompson Flores no TRF4, assegurava que a legitimidade das ações criminosas da célula de Curitiba seguiria intocada. No STF, a dobradinha Gilmar Mendes Dias/Toffoli seguia afinada e garantia que nenhum “fogo amigo” atingisse os “amigos do rei”. Habeas Corpus, pedidos de vista, arquivamentos, dilações de prazo e toda sorte de malabarismos judiciais eram lançados para manter sob fogo cerrado os políticos da esquerda e, só os políticos da esquerda.

O alto empresariado havia cooptado o médio e pequeno, convencendo-os do engodo de que “todos tinham os mesmos interesses”, e estes eram “tirar o PT”. Sem conhecimento suficiente para compreender que o médio e pequeno empresariado vive do poder de compra da população, a histeria alucinada do anticomunismo fazia o discurso do Seu Chico, que tinha oficina mecânica para carros usados, ser o mesmo do dono da AMBEV. “Tirar o PT” e “acabar com a “mamata” eram as bandeiras que pareciam unificar os diferentes estratos da sociedade governo. Não havia nada de lógico, empírico ou real nelas, mas, controlados, os que acreditavam nestas sandices eram úteis aos planos da direita.

A estratégia era de médio a longo prazo e prometia varrer definitivamente a esquerda do poder. Com Gushiken morto, Genoino, Dirceu e Lula acuados nas ilegalidades judiciais, o PT padecia de agilidade política, experiência e robustez de ação institucional. O governo Dilma ressentia-se de não ter mais entrada no legislativo ou no judiciário e todos os analistas previam um inverno duro para o Partido dos Trabalhadores que ainda tinha que lidar com os problemas de um partido imenso, cheio de correntes internas e que, muitas vezes, não conseguia consenso suficiente para as ações políticas requeridas nos momentos necessários.

Em março de 2017, na comemoração de aniversário de um figurão jornalista, Aécio perguntava à nata da politicagem da direita ali reunida: “Vamos abrir espaço para um aventureiro salvador da pátria?” Era a justa preocupação daquele que em não tendo a retidão moral e consciência histórica do avô, aprendeu a fazer um tipo de política “epidérmica”, que garantia insights de sobrevivência.

Aécio estava certo. E, após ser escorraçado de uma manifestação da “nova direita” na avenida Paulista, ele e o governador Alckmin devem ter sentido um frio na espinha. Haviam ido longe demais?

É fácil teorizar na vaidade de Aécio, na ganância desmesurada de Serra e no deslocamento geográfico-político de Jereissati para assumir o poder nacional, mas a verdade é que o desespero de Temer, Jucá, Eliseu Padilha, Geddel e Moreira Franco pisavam fortemente no acelerador do carro que embarcavam de carona. A trupe do PMDB não estava contemplada no planejamento a longo prazo, especialmente porque todos estavam imbricados em antigos e conhecidos escândalos de corrupção. E, se Dilma devotava seu mandato a alguma coisa, era “limpar o Brasil”. Graça Foster, na Petrobrás, foi um sinal bastante eloquente.

Além do instinto de sobrevivência do fisiologismo histórico do PMDB, o pré-Sal e o crescimento geopolítico da China jogavam mais gasolina na fogueira. Os EUA precisavam garantir um suplemento de petróleo em caso de conflito (sempre em mente) entre eles e China e Rússia. As rotas vindas do oriente médio seriam imediatamente fechadas pelos “inimigos” e a máquina de guerra americana corria o risco de ser asfixiada. A América Latina e, mais especificamente, a Venezuela, tinham que voltar a ocupar seus lugares de submissão complementar aos EUA. Lula, Chavez, Evo Morales, Rafael Correa, os Kirchner e Mujica se afinavam no discurso anti-imperialista e fechavam as portas da submissão passiva.

De repente, todos acertaram seus ponteiros no credo de que a queda de Dilma e a prisão de Lula resolveria todos os problemas. Esqueceram-se de pensar o depois. Um erro comum em todas as ações de intervenção política no século XX e XXI. Para derrubar Dilma, contudo, apenas as forças em questão pareciam não ser suficientes. O judiciário não poderia ser torcido aos interesses de Moro, Gebran e Thompson Flores sem um intenso apelo midiático. A mídia não queimaria sua imagem de “equidistância” sem a certeza de que haveria um ganho certo ao final da “missão”. Era preciso vozes nas ruas, almas e braços que se dispusessem a ir aos milhões completar a força necessária para criminalizar e afastar um projeto de governo que tinha sido só sucesso durante quase 13 anos.

O pacto desta direita liberal com os grupos neopentecostais e neofascistas, utilizando-se dos canais de comunicação destes, cumpria o papel de apressar a queda de Dilma. Contudo, estes novos grupos se contentariam com abraços e tapinhas nas costas depois do golpe concluído? Janaína Paschoal, por exemplo, faria toda a encenação jocosa da “República da Cobra” por trinta “dinheiros” e só? Alexandre Frota, Olavo de Carvalho, Kim Kataguiri, Joice Hasselmann se conformariam com o “dever cumprido”?

Era este o sentido da pergunta de Aécio.

A resposta é evidente hoje, mas também já era naquela época. Hipotecar legitimidade política da nação na mão de mentecaptos e energúmenos pode cumprir funções táticas de curto prazo, mas exige um preço impagável a longo. Toda a historiografia sobre nazismo e fascismo fazia esta advertência. Há limites civilizatórios cujo custo de ruptura é por demais alto. Nos EUA, por exemplo, os democratas não quiseram pagar. Trump governa com escândalos e mais escândalos em todas as áreas imagináveis. O impeachment é uma vaga ameaça. Do alto dos seus 243 anos de democracia, as elites econômicas e políticas de lá sabem que é melhor uma democracia ruim comandada por opositores políticos do que o autoritarismo ou o pulo no escuro da ruptura institucional.

Bolsonaro completa pouco mais de 40 dias de governo e a direita brasileira é uma terra arrasada. FHC, Serra, Alckmin, Aécio, Temer, Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho e outros falam sozinhos, sem significação ou força. A cena do lançamento da candidatura de Aécio ao cargo de Deputado Federal é a síntese do que aconteceu com a direita. O preço da hipoteca institucional para prender Lula e desmantelar o governo Dilma é a morte política do liberalismo e sua substituição pelo tosco, pelo bruto, pelo incapaz e inconsequente.

Bolsonaro não tem estofo para governar, não sabe se cercar de inteligência institucional para que se possa minimamente dizer que seu governo será “ruim”. Ainda, como partícipe sujo do baixo clero por anos, suas vidraças são muito frágeis. Em trinta dias, o conglomerado de mídia e o capital tentam colocar senso no fascista, apertando os ataques sobre seu filho e as relações com corrupção e milícias. Senso este de que foi imbuído subitamente o vice Mourão. Vendo-se fiador institucional de um bando de loucos, Mourão tenta salvar sua biografia e a imagem do exército. A missão seria difícil até mesmo para uma pessoa sensata e capaz.

Em pouco mais de 40 dias, Bolsonaro demonstra a total incapacidade de governar. Seus filhos acreditam-se príncipes herdeiros, donos de uma “capacidade técnica” e conhecimento que lhes permite transitar entre várias áreas do governo, com a desenvoltura de um rinoceronte com gota. Os supostos “especialistas” conseguem ser ainda mais caricatos e incompetentes do que os membros da “famiglia”. Damares, Ernesto, Ricardo Salles e o colombiano que pensa que está numa viagem antropológica comandando a Educação do país asseguram a chance zero de qualquer coisa neste governo funcionar.

Com a direita arrasada, e o regime fascista envergonhado batendo cabeça e naufragando por completo, a esquerda se revigora. O PT segue vivo e como o maior partido de esquerda da América Latina. O PSOL se fortalece com novos e combativos nomes no Congresso. A aliança de esquerda não somente sobrevive, como se fortalece. O futuro do governo Bolsonaro é acabar na vergonha do fracasso e permitir o retorno da esquerda ou ceder a uma ditadura escancarada. Mourão é a sempre presente carta da ditadura a ser eventualmente usada.

A questão para o país é, contudo, mais importante. Se Bolsonaro não for retirado do poder, os estragos que ele fará ao Brasil são algo perto do irreparável. A destruição que ele e seus “aliados” promoveram na direita está a ponto de ser feita no país todo. O exército já percebeu que embarcou novamente num enorme erro. Vai ser fiador do fracasso histórico de Bolsonaro, e ficará pelas próximas décadas ligado a nomes como estrambólicos como Damares, Ernesto e Olavo de Carvalho.

Em 64 eles tomaram o poder com Otavio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Delfim Neto. É indiscutível que o atual regime não tem chance alguma de dar certo.

O que vem por aí não é nada bonito

Gilson Caroni Filho

Globo, Folha e Estadão estão atacando o clã Bolsonaro. Nenhum dos três grupos midiáticos tem apreço pela democracia. Sempre estiveram ao lado de golpistas. No caso do capitão e de seus filhos desastrados o receio é que o desgaste precoce - que já beira o patético- ponha em risco todo o processo iniciado em 2016, com o impeachment da presidente Dilma. Há uma agenda cara ao capital financeiro. Ela contém supressão de direitos e desmantelamento do Estado. Para manter o controle sobre a dinâmica política é necessário tutelar totalmente o fascista eleito ou criar condições para que Mourão assuma o posto. O que está em jogo é isso. Nada mais. 

Como não vislumbro no horizonte possibilidades exitosas de ações contra-hegemônicas, limito-me a achar graça do fogo em extensos laranjais. Sempre fui contra latifúndios. Ainda mais quando são cultivados por milicianos e afins. Mas você, eleitor do bolsomito, tinha noção de que ia ficar exposto a tamanho ridículo? Disfarça, faz arminha e diz que não votou em ninguém. O que vem por aí é triste, mas você não ficou nada bem na foto.

Jogada arriscada

Luis Felipe Miguel

Bolsonaro estava saindo do hospital - após a última sessão de quimioterapia, segundo o relato da Cantanhede - enquanto seu filho praticamente demitia um ministro pelo Twitter.

"Praticamente" porque o Bebbiano fingiu que não entendeu o recado e continua agarrado no cargo. Isso está se tornando rotina no novo governo.

Mas o próprio Jair não só ordenou Moro investigar como disse que Bebbiano poderia "voltar às origens". Imagino que não seja nenhuma metáfora, como "ponta da praia". É só perder o cargo mesmo.

Moro, obediente, disse que investiga sim, porque "o senhor presidente proferiu uma determinação". Deve estar esperando instruções sobre qual deve ser o resultado da investigação.

A jogada é arriscada - afinal, Bebbiano certamente sabe de uma grande quantidade de podres - mas segue uma racionalidade. Bolsonaro posa de intransigente com o laranjal e afastado de todas as maracutaias.

Enquanto isso, do Queiroz, das milicias e das peraltices do garoto que virou senador, nada de nada de nada.

Bastaram 45 dias para Bolsonaro provar que não tem condições de governar o Brasil


Ricardo Kotscho

Quinta-feira, 14 de fevereiro de 2018.

Está na hora de falar português claro, com todas as letras: o capitão reformado Jair Messias Bolsonaro já provou, apenas 45 dias após a sua posse, que não tem a menor condição de governar o país por quatro anos.

O batalhão de  generais que ele levou para o governo já sabe disso.

Eleito presidente da República sem participar de debates, sem apresentar qualquer plano concreto de governo, apenas atacando os adversários e repetindo bordões imbecis nas redes sociais, era uma caixa preta levada pelo voto ao Palácio do Planalto para derrotar o PT.

Agora, que o país vai descobrindo, a cada dia mais assombrado, de quem se trata, não adianta repetir que “é preciso torcer para dar certo porque estamos todos no mesmo avião”.

Não tem como dar certo. Bolsonaro vai pilotando a esmo, sem qualquer plano de voo, desviando das nuvens pesadas em meio a tempestades que ele mesmo e seus celerados filhos não cansam de provocar.

Os militares que o apoiaram sabiam muito bem quem era o capitão reformado pelo Exército aos 33 anos por atos de indisciplina, não podem alegar inocência.

Bastava consultar seu prontuário no breve tempo em que serviu ao Exército.

Mesmo sabendo o risco que corriam, foi a forma encontrada pelos militares e seus aliados daqui e de fora para voltarem ao poder, apenas 34 anos após o fim da ditadura.

Definido pelo general Ernesto Geisel como “mau militar”, Bolsonaro passou sete mandatos escondido no baixo clero da Câmara, sem fazer nada que preste, e resolveu ser candidato apenas por capricho para combater seus inimigos reais ou imaginários.

Fez da campanha eleitoral uma guerra, imitando arminhas com as mãos, e ameaçando fuzilar a petralhada.

Uma vez no poder, continua sua guerrilha nas redes sociais, sob o comando do filho Carlos, mais conhecido por Carlucho, o 02, chamado pelo presidente de “meu pitbull”.

Ao retornar a Brasília nesta quarta-feira, depois de passar 17 dias internado num hospital em São Paulo, recuperando-se da terceira cirurgia, sem passar o cargo para o vice, em quem ele e os filhos não confiam, Bolsonaro encontrou um banzé armado no Palácio do Planalto.

O 02 resolveu detonar pelo twitter o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno, dono do cofre da campanha do PSL, denunciado por variadas falcatruas com a verba do fundo eleitoral.

Em mais uma entrevista à Record, Bolsonaro apoiou o filho e resolveu carbonizar o seu ministro mais próximo, dando uma ideia do clima no Palácio do Planalto.

Bebianno, que deve saber demais, não pediu demissão nem foi demitido até a hora em que escrevo este texto.

Como devem se sentir agora os outros auxiliares do presidente, que nem conhecia a maioria deles, e foi montando seu ministério meio a olho, catando o que de pior encontrou em cada área?

Este já é de longe o pior ministério da história da República. E vai governar com o pior Congresso e o pior Supremo Tribunal Federal que já tivemos.

Com a revelação do laranjal de candidatos bancados com dinheiro público, desviado para gráficas fantasmas, sabemos agora como foi montado o esquema da “nova política”, que levou uma manada de cacarecos para Brasília.

Antes que se pudesse imaginar, eles já estão se engalfinhando por nacos de poder no governo e no Congresso, num clima de desconfiança generalizada, todos andando de costas para a parede.

Twitter, WhatsApp, Facebook, tudo isso pode ser muito bom e bonito para eleger um presidente pelas redes sociais, mas é impossível governar com um celular na mão, sem ter a menor ideia do que se pretende fazer para enfrentar os gravíssimos problemas sociais e econômicos do país.

A impressão que me dá é que Jair Bolsonaro não esperava ganhar a eleição quando se lançou candidato e agora já deve estar arrependido de ter vencido.

De crise em crise, de recuo em recuo, de trombada em trombada, a caixa preta desse circo de horrores vai sendo aberta para espanto do mundo civilizado.

Das duas uma: ou os generais vão tutelar o ex-capitão por mais quatro anos ou o país enfrentará uma crise institucional sem precedentes.

A primeira providência deveria ser tirar os celulares das mãos dos Bolsonaros.

Vida que segue.

A voz da moderação

Gilberto Maringoni

TENTE SE LEMBRAR

Sabe o Mourão?

É, o Mourão, aquele que há três anos pregava o golpe militar?

Sim, o que disse que o décimo-terceiro é uma aberração brasileira ?

E que, na Globo News, contou que seu herói é o Brilhante Ustra?

Isso, aquele que, em entrevista à Piauí, afirmou que os militares venezuelanos deveriam ter matado Chávez no golpe de 2002?

O tipo que arranjou uma boquinha para o filho no Banco do Brasil?

O mesmo que, em entrevista ao Valor, afirmou ser necessário efetuar um "desmonte do Estado".

Mourão, aquele americanófilo ensandecido, lembra?

Lembra?

Pois é, ele é o lado sensato do governo agora...

Laranjas venenosas

A realidade vai mais longe, porque a Câmara está contaminada
Janio de Freitas

A bancada do PSL de Bolsonaro está constituída, na Câmara, com a inclusão de beneficiários de burla eleitoral. E não só eleitoral, por se tratar de atos lesivos aos cofres públicos. Essa é a realidade.

A revelação desta Folha que Bolsonaro considerou acabada, de candidatos-laranjas para tomar dinheiro do fundo partidário, não se soluciona com a responsabilização de um ou outro dirigente do PSL na última eleição. É o que querem os Bolsonaros. Mas a realidade vai mais longe, porque a Câmara está contaminada.

Também não bastam investigações do Ministério Público e da Polícia Federal em Minas e em Pernambuco, estados com a burla de "laranjas" já exposta na Folha. Como o próprio Bolsonaro dirige o indicador para Gustavo Bebianno, hoje secretrário-geral da Presidência e presidente do PSL no ano passado, há mais motivo para suspeitar que a burla rendosa fosse uma orientação ampla. Além disso, o já comprovado desvio de verba eleitoral, para pagamento de gráfica inexistente, atesta um método de desvios para caixa dois ou para bolsos pessoais.

Os eleitos com recursos partidários provenientes de dinheiro público, em montante aumentado por golpe, tiram a legitimidade das votações de que participem. E o provável, com isso, é que sujeitem os resultados a questionamento judicial, para anulá-los. Diante disso, e apesar de mais interessado nas boas relações com Bolsonaro, Rodrigo Maia tem obrigações próprias de presidente da Câmara, e não se justifica sua indiferença ao surgimento do caso.

Ser mais um na série diária do governo Bolsonaro não faz desse um episódio qualquer. Mas, se não houver atenção pública, dos órgãos oficiais não se deve esperar o predomínio da imparcialidade e da lei. Sob o pretexto de "pacificação" e "harmonia", ninguém quer nada. De bom.

LUGAR DO PERIGO

Determinada pelo Judiciário, a transferência de duas dezenas do PCC para Rondônia e Rio Grande do Norte, área já conflagrada, é um teste particular de São Paulo. O acordo do então governador Cláudio Lembo com o PCC foi um gesto responsável e inteligente. Apesar de toda a crítica fácil e da negação posterior dos seus sucessores. As forças paulistas levavam uma tunda feia, atônitas e incapazes de inverter a situação que já seguia para 600 mortos.

Desde então, o acordo prevaleceu por um motivo tácito: falta de segurança para arriscar o enfrentamento com o PCC e seus aliados. Na ânsia de promover-se, João Doria festejou com a arrogância adolescente a transferência de Marcos Camacho, o Marcola, e 21 companheiros para distantes presídios federais. Mesmo recolhidos a presídios semelhantes, Fernandinho Beira-Mar e outros continuam exercendo sua condição de cabeças, em vários sentidos.

Com a transferência de Marcola, o Exército recebeu mais uma função, aliás, sem precedente: carcereiro externo de presídios. No medo extremo criado por um cabeça e 21 companheiros, os militares do governo poderiam ver o Brasil que de lá não veem.

O problema do teste é que não passará nos gabinetes de governo. Será nas ruas e nos prédios da população.

Ideias delirantes de Paulo Guedes não se tornarão realidade com esse desgoverno


Paulo Guedes age mais como guru do que como ministro
Laura Carvalho

Durante a campanha eleitoral, muitos acreditaram que o superministro Paulo Guedes seria o fiel da balança em um governo formado, em sua maioria, por comentaristas de portal.

Hoje, com a vaga sendo disputada até mesmo pelo general Mourão, o ministro encarregado de solucionar a crise continua preferindo impressionar os ultraliberais das redes sociais a dedicar-se a viabilizar propostas.

“Guru financeiro de Bolsonaro planeja perestroika de livre mercado”, diz o título da reportagem publicada no Financial Times na segunda-feira (11) e reproduzida pela Folha, que destaca trechos da entrevista concedida por Guedes ao jornal britânico.

O fato de o ministro da Economia do Brasil ser tratado como um “guru” só não chama mais a atenção do que a desconfiança gerada por algumas de suas falas.

“Vi o Chile mais pobre do que Cuba e Venezuela, e os 'Chicago boys' resolveram. O Chile agora é como a Suíça”, chegou a afirmar o ministro na entrevista. 

Quando os jornalistas lhe perguntaram sobre os custos sociais da agenda, entre os quais a taxa de 21% de desemprego a que chegou o país em 1983, Guedes respondeu que isso é burrice (“rubbish”, em inglês), pois “o desemprego já estava lá. Só estava escondido dentro de uma economia destruída”. “É um ponto de vista controverso”, ressaltou a reportagem eufemisticamente.

Após destacarem a afirmação do ministro de que a guinada à direita depois de 20 anos de ditadura e 30 anos de social-democracia é saudável, os jornalistas tampouco se mostraram convencidos: “Dúvidas ainda permanecem. E a política social, dada a desigualdade escancarada no Brasil?”, indagam.

Um dia antes, a jornalista Míriam Leitão criticou em texto no jornal O Globo o que chamou de “falha na comunicação” do ministro.

Em vez de conceder entrevistas coletivas organizadas para expor as propostas do governo e justificá-las perante a sociedade, facilitando sua aprovação, Guedes tem feito intervenções rápidas quando parado por repórteres ou apresentações para empresários em que joga suas ideias nada plausíveis no ventilador.

O ministro chegou a sugerir, por exemplo, que as mulheres poderiam se aposentar antes a depender do número de filhos, tomando cuidado “com dona Maria que pode ter 13 filhos, não queremos estimular isso”.

Ou que, “quando o patrão fizer alguma besteira” com o jovem que optar por trabalhar por uma tal “porta da direita”, em que não vale a CLT, este terá de recorrer à Justiça comum, e não à Justiça do Trabalho.

“Falta explicar muita coisa. E é nisso que faz falta o contraditório, para que ele informe melhor. O que acontecerá com os direitos trabalhistas que estão em cláusula pétrea da Constituição?”, perguntou-se Míriam Leitão.

“As chances de sucesso aumentam com uma comunicação mais organizada, clara e, principalmente, democrática”, concluiu a jornalista.

Ao se comportar como um “guru” não dotado do pragmatismo necessário para viabilizar sua agenda, Guedes parece operar mais no estilo Mangabeira Unger do que na linha do ex-ministro Palocci —mal comparando, é claro.

Para não cair nas idas e vindas, no disse me disse e na cortina de fumaça que o governo Bolsonaro parece ter importado do trumpismo, resta aos analistas aguardar medidas concretas anunciadas em decretos, projetos de lei ou emendas constitucionais. 

O problema é que, como o muro na fronteira mexicana ou o “brexit”, a agenda econômica de Guedes pode acabar não saindo do mundo virtual em que funciona tão bem.

Em nome do Senhor


Isso não vai acabar bem

Os príncipes

Tereza Cruvinel

O que significam os filhos de Bolsonaro no regime político brasileiro? Serão príncipes numa dinastia sem sangue azul? Metem-se em todos os assuntos de governo como se tivessem sido eleitos juntos com o pai. E o pior é que ele, o pai, acha normal e estimula, como fez ao reproduzir o post do filho Carlos desmentindo e desmoralizando um ministro do governo.

Isso não vai acabar bem.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Alinhamento militar do Brasil aos EUA levará país ao desastre

Nilson Lage

Os generais brasileiros estão crentes de que vai haver uma guerra mundial e os Estados Unidos vão ganhar. Não creio. Só os Estados Unidos querem essa guerra que a ninguém mais interessa. E a guerra que importa – a econômica e cultural -, acho eu, os Estados Unidos já perderam, no horizonte histórico.

Começaram a perder quando permitiram, no final dos anos 40, a ascensão do segmento pró-nazista antes mobilizado contra o New Deal de Roosevelt e que se encolhera durante a guerra com a Alemanha. Houve o recuo macartista. e o custo cultural foi enorme. O impacto durou pelo menos até os conflitos étnicos dos anos 60 e a derrota na guerra do Vietnam.

Perderam negociando mal o acerto de Bilderberg, pelo qual abriram, nos anos 1950, seu mercado à indústria mecânica europeia, sem os contrapesos necessários. Depois, nos anos 1970, priorizaram a ação contra a União Soviética e, no embalo, não só cederam a liderança que tinham em eletrônica para Japão e Coreia, como permitiram o início do grande salto chinês. 

Ignorância de História: só as guerras (inglesas) do ópio, em meados do Século XIX, conseguiram, tomar dos chineses, e por 150 anos, o domínio no comércio com o Ocidente. 

A submissão da economia real a uma economia de símbolos e convenções – moeda sem lastro e versões da realidade impostas pela propaganda – não se sustenta. A expansão da pobreza é tóxica; e a realidade sempre vence.

Os Estados Unidos têm um ensino médio e de graduação superficial, pouco estimulante, e um ensino de pós-graduação espetacular, mas tocado por estrangeiros: é contratante, não produtor de tecnologia e arte. O povo americano, tomado em sua generalidade, não foi cultivado com requintes de bom gosto, acha que cientistas são magos e intelectuais subversivos ou alienados. Valoriza mais intuição e esperteza.

Só o fato de o Establishment norte-americano sustentar, sem forte contestação interna, que a soberania do país é ameaçada por nações tão frágeis quanto Líbia, Iraque ou Venezuela já indica impressionante alienação.

A bozocracia

Carlos Bolsonaro

Ontem estive 24h do dia ao lado do meu pai e afirmo: “É uma mentira absoluta de Gustavo Bebbiano que ontem teria falado 3 vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado pelo Globo e retransmitido pelo Antagonista.”
Joice defende Bebianno e abre guerra com filho de Bolsonaro
A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) saiu em defesa do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, que foi chamado de mentiroso pelo vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ) nesta quarta-feira, 13.  
"Não pode se misturar as coisas. Filho de presidente é filho de presidente. Temos que tomar cuidado para não fazer puxadinho da Presidência da República dentro de casa para expor um membro do alto escalão do governo dessa forma", disse Joice.
Declaração ao Antagonista do deputado federal Alexandre Frota (SP) sobre as brigas internas do seu partido: "Quero que se foda". A Nova Política continua surpreendente.

Sergio Moro e a visita da Taurus

Moisés Mendes

Uma das suspeitas mais graves desde o início do governo é a de que, às vésperas do decreto de ‘flexibilização’ da posse de armas, o ministro Sergio Moro teria recebido representantes da Taurus em seu gabinete,

A Taurus, todo mundo sabe, é a grande fabricante de armas do Brasil e da América Latina. Não havia empresa mais interessada no conteúdo do decreto do que a Taurus.

O PSol mandou perguntar se havia registro da entrada do presidente, Salesio Nuhs, e de um diretor da Taurus no gabinete de Moro. 

A resposta, que está agora na Folha online, é ridícula: o ministro nega o acesso a esse tipo de informação e não diz nem sim nem não, em nome do 'direito à privacidade'.

A lei de acesso à informação e o direito à transparência obrigam ocupantes de cargos públicos a revelarem suas agendas, até porque não estamos em guerra (ou Moro acha que estamos, ou que os interesses da Taurus merecem tratamento de confidencialidade?).

Moro ainda acha que está em Curitiba, sob a proteção de uma vara especial, da imprensa e da direita que o considera seu ídolo. 

O nada a declarar é típico do período de ditadura. Mas a tentativa de drible de Moro no pedido de informação do Psol já vale como resposta. Está respondido.

(O interessante é que o Palácio do Planalto admite, em resposta a outra consulta do Psol, que Salesio Nuhns esteve na Casa Civil, antes da edição do decreto, e conversou com o chefe de gabinete de Onyx Lorenzoni, Marco Rassier. A Casa Civil não sonega informações sonegadas por Sergio Moro. A Taurus, quando as empresas ainda podiam fazer doações a políticos, foi uma das financiadoras da campanha de Onyx. É tudo misturado. Há mais armas nisso tudo do que as arminhas de dedinhos dos filhos de Bolsonaro.)

Boechat levantou a mão contra o ungido e foi morto por Deus!


Entre todas as coisas ruins que estão acontecendo nessa semana, tivemos uma mostra do que tem de mais tóxico dentro das igrejas evangélicas: fiéis comemorando a morte de Ricardo Boechat por ter "levantado a mão contra o ungido" e criticado um pastor.

Essa postura de alguns é uma consequência da cultura de medo que vem imposta de cima do altar, por pastores que se consideram autoridades inquestionáveis, condenando qualquer questionamento e amaldiçoando quem ousa deixar uma comunidade saindo de suas esferas de controle.

Não obstante, ainda citam ex-membros que passam por infortúnios ou tragédias, declarando o juízo de Deus ao falar que "a mão de Deus pesou" sobre a pessoa.

Para estes há apenas um recado triste: se vocês acham que Deus está olhando as pessoas para escolher que castigo ou que tragédias apontar para cada um, então sua concepção de deus é muito mais do grego Zeus do que de Jesus.

Declarar que Deus odeia uma parcela da população é libertador para alguns: permite que a pessoa transfira seu ódio para Deus e assim legitima sua fúria contra os outros.

Nada mais longe dos evangelhos: aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.

Ninguém pode reivindicar amar a um Deus que não vê se não consegue amar ao próximo que está bem visível na frente da pessoa.

Como seria bom que as pessoas que passam o tempo desejando a "justiça" de Deus (o certo é que querem vingança mesmo) ou o inferno para seus inimigos percebessem que elas mesmo estão vivendo no inferno.

As definições de vagabundo foram atualizadas


VA GA BUN DO

No Brasil de Bolsonaro, as definições de vagabundo foram atualizadas

Rosana Pinheiro-Machado

A subjetividade fascista que cresce no Brasil não mobiliza o medo de um inimigo externo, como é comum no hemisfério norte. Nosso inimigo é interno: o velho conhecido vagabundo.

O mérito de Bolsonaro foi ter conseguido atiçar uma ira latente contra os vagabundos. A elite racista e classista apoia a remoção de toda a articulação de “vagabundos” – nordestinos, beneficiários do bolsa-família, minorias e ativistas. Outra parte da população, aflita por muitos medos e perdas, também. Forjando o papel da justiça e da ordem militar, Bolsonaro conseguiu tocar no âmago de uma grande parte da população que acha que a vida é injusta e que os vagabundos passam bem. Nas páginas da extrema direita, as palavras vagabundos e marginais são as que mais parecem, especialmente para designar petistas e assaltantes.

Enquanto parte da esquerda se manteve em sua redoma intelectual ou centrada em suas próprias disputas, Bolsonaro foi articulando todas as forças obscuras do país, ganhando espaço, acionando o poder advindo do pânico moral e da disputa do nós contra eles – o que faz todo o sentido em um contexto de crise econômica, política e também de segurança pública. Refiro-me à esquerda porque vídeos em que Bolsonaro falava atrocidades, associando PT a uma bandidagem, circulavam amplamente no WhatsApp do Brasil profundo, mas ninguém do campo progressista viu ou acreditou que seria possível a sua eleição.

Bolsonaro começou a aparecer sem parar depois de 2013, especialmente após polêmicas com Benedita da Silva e Maria do Rosário. Nessa época, ele criou sua página no Facebook e grande parte de suas postagens são contra vagabundos em uma campanha que começa a cada a vez mais associar petistas a “marginais vagabundos”. Em uma entrevista decisiva que recebeu os holofotes de toda a mídia (que o ajudou a crescer) em 2014, Bolsonaro usou essas palavras acusatórias sete vezes em um minuto e meio, dizendo que as cadeias não podiam ser colônia de férias. E tudo isso associando o PT e o MST a temas como o falso kit gay.

No meio do vácuo deixado pela crise, em que a narrativa do crime se enche de significado, apontando culpados e inimigos internos, Bolsonaro atiçou a nossa tradição sádica mais profunda. E ganhou

Que país é esse?

Sírio Possenti

A segurança de Brumadinho era aquela coisa, como se está vendo a cada dia (o que a Vale sabia sobre riscos era demais para ficar na dela). A das dependências dos meninos do Flamengo, aquele desleixo (multas, falta de vistoria dos bombeiros etc). Agora fica-se sabendo que o helicóptero em que viajou Boechat não era destinado ao transporte de passageiros; e que usar um licenciado para este fim ou dar um jeito é uma questão de custos. Que porra é essa?

Decisão do TST é um primor

Luis Felipe Miguel

A decisão do TST é um primor. Se Ellen Meiksins Wood estivesse viva, bem poderia usá-la para acrescentar uns parágrafos a seu importante artigo sobre como a separação entre economia e política é um produto ideológico que cumpre a função de conter as demandas da classe trabalhadora.

Greves contra privatizações são "políticas", não "econômicas", e portanto ilegais. A maneira como a maioria do tribunal, comandada pelo notório Ives Gandra Filho, maneja estas categorias é tão rasa que não pode ser ingênua. É deliberada.

Como uma privatização, que aponta para demissões, redução de salários, deterioração das condições de trabalho e perda de autonomia laboral, não afeta os interesses estritamente "econômicos" dos trabalhadores?

Por que os trabalhadores de uma empresa - e ainda mais uma empresa pública - devem ser vistos como externos a ela ou então como maquinaria inanimada que é disposta a bel-prazer dos patrões, não como partícipes interessados em seu futuro? Uma visão tão lockeana do contrato de trabalho parece alguns séculos atrasada.

A hilária referência aos "representantes do povo" que deveriam legislar num vazio de pressões sociais, à la Schumpeter, levanta outra questão: por que a classe burguesa pode usar permanentemente todas as suas armas para garantir que o Estado atenda a seus interesses, mas a classe trabalhadora deve ficar passiva?

Um dos paradoxos do Brasil dos retrocessos: somos constrangidos a defender a justiça do trabalho, que os radicais da nova ordem querer extinguir para estabelecer plenamente a lei da selva nas relações entre empregadores e empregados. Mas a justiça do trabalho é, sempre foi, pensada como um instrumento de contenção das reivindicações da classe trabalhadora - uma contenção, no entanto, que passava por acomodações, concessões, redução de tensões. É isso que o capital hoje julga desnecessário.

Genealogia da mediocridade


Ricardo Costa de Oliveira

Na série das genealogias de jornalistas pesquisamos Merval Soares Pereira Filho, um dos símbolos da superficialidade do jornalista de poder, o jornalismo de quem é bem sucedido no Brasil golpista contemporâneo. Trata-se de nulidade literária triunfante. Como tamanha mediocridade cultural consegue galgar posições, senão em um país estruturado nos mesmos valores medíocres distribuídos da presidência até seus “intelectuais” da ordem no poder. 

O pai de Merval Soares Pereira Filho foi o médico de mesmo nome nascido no Maranhão e radicado no Rio de Janeiro, funcionário público e muito bem relacionado. A mãe, Maria Helena Cardoso Soares Pereira, também era do Maranhão. O avô paterno era o desembargador Constantino Pereira casado com Camila Soares, de importante família paraibana. 

As duas famílias apresentam os elementos das típicas famílias das oligarquias da República Velha. Tios deputados (Raul Soares Pereira foi deputado estadual no MA, Oscar Soares era deputado federal da PB), muitos funcionários públicos, membros da elite estatal, profissionais liberais, como Pedro Ivo e Orris Soares. A avó paterna, Camila Soares, era sobrinha do presidente da Paraíba (1916-1920), Francisco Camilo de Holanda. Merval Filho é neto materno do senador, interventor, deputado e prefeito de São Luís, Clodomir Cardoso. 

O pai de Merval Filho, o médico Merval, ligou para o vice-presidente do Globo, Rogério Marinho e pediu um estágio para o filho, em 1968, típico “paitrocínio” característico dessas relações sociais. Daí é conhecida a longa carreira no jornalismo e na gestão dos veículos midiáticos de Merval, culminando na Academia Brasileira de Letras - ABL, com obra escrita e literária pífia. Outra curiosidade genealógica de Merval é o parentesco com Jô Soares, ambos são primos pelo ramo de Adolfo Eugênio Soares, rico comerciante da Paraíba, o que mais uma vez mostra que ter boas relações sociais e empresariais na família sempre ajuda muito no “talento pessoal meritocrático”! Como em todas outras análises genealógicas temos o “Antigo Regime” novamente no poder do Brasil do século XXI, do qual nunca saiu!

Um tipo suspeitíssimo


Altamente qualificado


Luis Felipe Miguel

Kataguiri não tem experiência parlamentar, não tem capacidade de diálogo e não tem estofo intelectual para compreender questões complexas. E não trabalhou um único dia em toda a sua vida.

Parece o nome certo para ser relator da reforma da Previdência.

Trabalhar até morrer

Cris Penha

SABEM PORQUE QUASE NINGUÉM VAI CONSEGUIR SE APOSENTAR, PELO MENOS COM UMA APOSENTADORIA DECENTE? 

Não é por conta da idade mínima que deve ficar entre 63 e 65 anos. Pela expectativa de vida hoje no Brasil, 75,5 anos, grande parte da população chegará viva a idade mínima exigida para se aposentar. 

O problema para essa mesma maioria será chegar empregado com carteira assinada aos 65 anos. A maioria das empresas demite seus funcionários após os 50 anos, seja trabalhador braçal ou engravatado devido a perda de eficiência ou aos salários mais elevados, para contratar jovens que são mais eficientes ou mais baratos. 

Após os 50, muitos terão que se virar, abrir um negócio, virar motorista de Uber, fazer bicos e contribuir à Previdência por conta própria. Até vão conseguir se aposentar quando chegarem a idade mínima, mas com uma aposentadoria muito baixa. Esse é o preço que vão pagar por terem votado em Bolsonaro e Paulo Guedes. 

Não foi por falta de aviso durante as eleições, mas escolheram acreditar nas Fake News. Agora vão encarar a dura verdade dos fatos. Se tivessem nos escutado, saberiam que o governo gasta mais com a Dívida Pública do que com a Previdência. Saberiam que o déficit da previdência cresceu devido ao desemprego elevado, informalidade e sonegação. Saberiam que o problema maior está justamente nas aposentadorias dos políticos, juízes, procuradores e militares, não no INSS ou nos servidores públicos da Educação, Saúde, Segurança ou Administração. Segundo o Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, todo mundo consegue trabalhar até os 80 anos. Minha sugestão? Faz arminha que passa!

Partido Suco de Laranja


É o apelido do PSL do rei Bozo I. E está pegando. Depois do Queiroz, o laranja familiar, a laranjada entornou. Uma candidata de faz de conta, Lourdes Paixão, de Pernambuco, recebeu R$ 400 mil do Fundo Eleitoral – dinheiro público -- na antevéspera da eleição e “torrou” tudo numa gráfica inexistente. Lourdes fez 276 votos para deputada federal. Se tivesse mesmo empregado os R$ 400 mil na campanha, cada voto teria custado R$ 1.459,00. Outra candidata do PSL, Érika Siqueira, recebeu R$ 250 mil. Para onde foram? Para a mesma “gráfica”...

Cabe ao TSE, se tiver alguma serventia, rastrear a grana de Lourdes e Érika para ver em que bolsos, depois da conta da “gráfica”, foi parar. São, tudo indica, bolsos de gente grande.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

PSOL vai jogar pesticida no Laranjal dos Bolsonaros


São cada vez mais numerosas as evidências de corrupção, Caixa 2 e demais ilicitudes envolvendo o presidente Jair Bolsonaro, seus familiares, membros, candidatos e assessores do seu partido, o PSL.

Do Caso Queiroz (conhecido como Escândalo do COAF), envolvendo o filho do presidente, atual senador Flavio Bolsonaro, num elaborado esquema de corrupção, até a revelação de que o partido do presidente Bolsonaro criou uma candidata laranja para usar verba pública de R$ 400 mil.

Como é preciso tomar providências sérias contra tanto descalabro, a Liderança do PSOL na Câmara está entrando com uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o PSL; seu presidente, Luciano Bivar, e o ex-presidente e atual deputado federal, Gustavo Bebiano para que sejam judicialmente interpelados pelo esquema envolvendo a candidata Maria de Lourdes Paixão e uma gráfica que teria prestado serviços eleitorais, mas que nunca existiu.

Avise a esquerda: luta de classes existe, e está em Brumadinho e no CT do Flamengo



Cansada de tantas derrotas nos últimos tempos, a esquerda simplesmente comemora como fosse um gol a forma como a Globo detonou a ministra Damares Alves no quadro “Detetive Virtual” no Fantástico do último domingo. Uma detonação bem seletiva: enquanto a emissora demonstra toda sua indignação e fúria investigativa nas questões identitárias e de costumes (vide a caça aos abuso sexuais de João de Deus), as tragédias de Brumadinho e do incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo são encaixadas na narrativa “tragédia-emoção-homenagens” – com direito a Galvão Bueno narrando os nomes dos jovens atletas mortos... 

Depois de colocar Lula na prisão perpétua e por os militares no governo, agora o novo papel da Globo é varrer a luta de classes para debaixo do tapete – cônscia de que, a partir de agora, acidentes como esses e a tensão social tenderão a crescer sob o modelo econômico de extrativismo selvagem: vender commodities módicas como ferro, manganês e jovens jogadores. Tudo a baixo custo, no limite da irresponsabilidade. Enquanto isso, sem se ater à tática semiótica de dissonância posta em ação pela parceria Governo/Globo, a esquerda reage de forma reflexa a cada bravata “politicamente incorreta” e esquece da luta de classes.

Texto completo AQUI

Leiliane, super-heroína


Leiliane, super-heroína ❤🌹

Créditos: Ângelo France

Desgraçômetro


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Siga o dinheiro

Fernando Horta

Quem matou as vítimas de Mariana? O capitalista.
Quem matou as pessoas em Brumadinho? O capitalista.
Quem matou os jovens no CT do Flamengo? O capitalista.

E todas as mortes decorrentes da ideia de que o lucro está acima das pessoas, geram - e sempre geraram - a degradação do ser humano e a degradação do meio ambiente.

Hugo Chavez um vez disse que se tivesse existido uma sociedade em Marte, certamente ela teria sido capitalista ... exatamente porque NADA se sustenta e se reproduz no "livre mercado", a não ser o lucro e a concentração de renda. Todo o resto é dispensável, desimportante, tornado barato ou afastado.

Portanto, está na hora de os promotores que cuidam destes casos responsabilizarem as pessoas que lucravam com as situações de risco. "Follow the money"...

Olavo de Carvalho criou uma seita


O mínimo que podemos dizer é que Olavo de Carvalho criou uma seita. Ele se apropria de algumas ideias caras a pensadores cristãos e pretende ter feito com elas a sua filosofia. Um verdadeiro “liquidificador delirante”. Link para o artigo:



Como liquidificador uma arma poderosa, precisamos ter cuidado. Olavinho me acusa de ter deturpado seu pensamento, ao não distinguir entre a comunidade de amigos-discípulos que ele cria e a comunidade que estaria baseada no conceito de amizade tal como pensado por Tomás de Aquino.

Conversa fiada. Que comunidade há entre uma figura patética que fica defronte de um computador dizendo absurdo atrás de absurdo e os pagantes de seus cursos? A comunidade de Olavinho é apenas isso, um espaço que ele controla de modo absoluto, no qual quem discorda está fora.

O verão do nosso máximo descontentamento

Claudio Guedes

Pobreza & mortes

O verão do nosso máximo descontentamento, este que ora vivemos.

O país entregue a uma família desqualificada, pequenos corruptos, políticos de uma pobreza intelectual assustadora, associados ao que de pior a sociedade brasileira produziu após a redemocratização do país.

Como se isso fosse pouco, um verão marcado por mortes, muitas mortes.

Tragédias? Sim.

Acontecimentos dolorosos, com muitas vítimas. Mas não acidentes. De forma alguma podem ser classificados como acidentes o rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, e o incêndio no CT do Clube de Regatas do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Ouvimos dia sim, outro também, com pequenas variações de tom, de ênfase, os dirigentes da Vale, companhia proprietária da mina/barragem, e do Flamengo, expressarem suas condolências às famílias das vítimas, pedidos de desculpa e disposição para indenizá-los.

Tudo bem? Claro que não.

Desculpas, condolências e indenizações. Mas quem trará os filhos das famílias atingidas de volta? Ninguém. Não voltarão. Soterrados sob camadas de lama e rejeitos de minérios e carbonizados enquanto dormiam.

Importa, e muito, encontrar os culpados que, por desleixo ou pressão indevida, se prestaram a participar de ações que não impediram as tragédias, que, ao contrário, facilitaram o desfecho fatídico. Mas isto é apenas parte do problema - e sequer a parte mais importante.

Por que tantos mortos?

Por que um empresa bilionária, com resultados extraordinários ano a ano, pagando milhões de dividendos a seus felizes acionistas, permite controles frouxos sobre barragens de rejeitos? Por que esta empresa tão bem sucedida permitiu a construção de um Centro Administrativo (CA), com refeitório para empregados, bem abaixo da área de deslizamento de uma enorme e saturada barragem de rejeitos? Por que, quando a barragem alcançou o tamanho que acabou por ter, o CA e as áreas de apoio não foram deslocadas por 100 ou 150 metros à esquerda ou direita do eixo de um possível derrame caso a barragem se rompesse? Por que, quando os primeiros indícios de que água em quantidade preocupante foi encontrada no interior da barragem, não foram tomadas medidas básicas de segurança como esvaziar o CA e instalar mais alguns alarmes para prevenir os habitantes à jusante da barragem de um possível, ainda que de difícil previsão, rompimento?

Por que providências tão simples nunca foram tomadas?

Por que um clube de futebol, dos maiores do país, com orçamento milionário, mantinha em seu CT alojamento para jogadores da base, jovens adolescentes, construídos de forma tão precária, sem Alvará da Prefeitura, sem Certificado de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB)? Por que algo semelhante a containers, estruturas originalmente concebidas para transportes de cargas marítimas, e re-projetados para moradia humana, como puxadinhos e com instalações elétricas precárias?

Por que os jovens adolescentes talentosos, jovens com futuros promissores, foram, são e continuam a ser alojados desta forma, ou muito pior, em dezenas de clubes de futebol profissional do país?

As providências nunca foram tomadas pela Vale e o Flamengo alojou seu plantel de jovens craques em condições inadequadas de conforto e segurança porque o que importou, em um caso e no outro, foram os recursos poupados.

A conta é feita pelos que vivem confortavelmente no "andar de cima". E para estes, e seus gerentes "cabeças de planilha", pouco importam as pessoas, o meio ambiente, os terceiros que podem eventualmente ser atingidos por suas decisões pseudo-racionais.

É a grana que comanda. A máxima lucratividade é o objetivo, seja na mineração, seja na formação de talentos do futebol.

As pessoas? O meio ambiente? A qualidade de vida? São descartáveis. Além do mais as vítimas são, em geral, pessoas pobres. Muitos negros. Pobres e negros eram quase todos os mortos no CT do Flamengo. E todos sabem como pobres e negros são tratados no país. Mesmo quando exibem um talento muito acima da média, em centros de excelência de formação de craques, têm direito apenas a uma "senzala" moderna: um container de aço, com ar condicionado, com energia puxada de uma gambiarra, e três beliches em um quarto de 15 m2.

Muitos, envergonhados, dizem: somos todos culpados. Para estes a culpa é da sociedade brasileira. Uma idiotice. Uma defesa esperta dos que são os verdadeiros culpados pelas tragédias. E estes são os que defendem o modelo de desenvolvimento que concentra renda, que atacam os controles legais e sociais sobre os empreendimentos, que vociferam contra as leis de proteção ambiental e que desprezam as normas modernas de segurança no trabalho.

Os culpados são os que tentam transformar em inimigos da nação todos aqueles que lutam - com suas limitações, erros e dificuldades - por um país mais justo socialmente, mais verdadeiro no respeito aos direitos civis e mais dedicado à valorização da vida.